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O passo a passo para um programa de responsabilidade social empresarial

Hayrton Rodrigues do Prado Filho

 

Há uma tendência atual da maioria das empresas que é a fabricação de produtos ou a prestação de serviços que não degradem o meio ambiente, que promovam a inclusão social e a participação do desenvolvimento da comunidade de que fazem parte. Esses são os diferenciais cada vez mais importantes para as empresas na conquista de novos consumidores ou clientes.

Pelo retorno que traz – em termos de reconhecimento da imagem corporativa e melhores condições de competir no mercado, além de contribuir substancialmente para o futuro do país –, o movimento da Responsabilidade Social Empresarial (RSE) vem crescendo muito no mundo. O negócio baseado em princípios socialmente responsáveis não só cumpre suas obrigações legais como vai além.

Tem por premissa relações éticas e transparentes, e assim ganha condições de manter o melhor relacionamento com parceiros e fornecedores, clientes e funcionários, governo e sociedade. Ou seja, quem aposta em responsabilidade e diálogo vem conquistando mais clientes e o respeito da sociedade. E  quais os passos para a implementação de um programa de RSE?

  • Vontade política da diretoria – Uma característica extremamente diferenciada na implantação desse tipo de programa em relação aos outros sistemas de gestão é que se nos outros deve haver o comprometimento da Alta Direção, porem no caso da RSE esse comprometimento é obrigatório por estar norteada por princípios e valores éticos e de responsabilidade – não existe empresa ética sem a estrita vontade e decisão da diretoria.
  • Realizar um diagnóstico da situação atual – A RSE deve ser cuidadosamente avaliada por profissional da área de responsabilidade social. Ela não precisa ser uma auditoria, mas no entanto deve ter caráter de diagnóstico para que sejam detectados eventuais pontos com necessidade de grandes adequações ou correções antes de começar a construção do sistema propriamente dito. Se não houver grandes correções a serem efetuadas passa-se para o item seguinte.
  • Ações corretivas ou de adequações iniciais – Havendo grandes ajustes e adequações a serem efetuados, deve-se providenciar um bem elaborado Plano de Ação que contemple:  os ajustes essenciais que conflitam diretamente com os princípios da norma de responsabilidade social adotada ; o sequenciamento entre ajustes, explicitando a dependência entre eles; o desdobramento de cada ajuste em etapas e estas em atividades; as determinações das eficácias de cada atividade, etapa e ajuste; o plano de ação de cada ajuste que contém, além das informações acima, os responsáveis, as datas previstas de realização e a coluna de status daquele item.
  • A eleição de um Representante da Direção (RD) – Outras normas de sistemas de gestão já trouxeram a figura do RD como o profissional catalisador da implementação do sistema e da sua manutenção e melhoria. O sistema de gestão da responsabilidade social necessita de um profissional extremamente maduro e de perfil ilibado, cabendo a ele autoridade e responsabilidade para: assegurar que os processos necessários para a RSE sejam estabelecidos, implementados e mantidos; relatar à Alta Direção o desempenho da RSE, necessidades de melhoria; e para a análise crítica como base para seu aprimoramento; assegurar a promoção da conscientização sobre os requisitos da norma em toda a organização; contatar partes externas para tratar de assuntos relativos ao sistema; monitorar os planos de ação e respectivas eficácias relativos à implantação da responsabilidade social dos demais gestores internos; planejar, comunicar e coordenar a execução das auditorias; coordenar as reuniões de Análise Crítica; e secretariar executivamente os assuntos ligados à responsabilidade social.
  • Definir uma equipe de trabalho- Terá como principais objetivos a conquista da implantação do sistema de gestão da responsabilidade social com elevado padrão de qualidade e a sua manutenção com foco na melhoria contínua. O grupo de trabalho deve ser presidido por um dos membros da diretoria, além da participação do RD, um representante dos funcionários e alguns gerentes. Esse grupo tem que trabalhar como uma equipe, e para isto alguns treinamentos devem lhe ser oferecidos: posturas e comportamentos, minimização de conflitos, organização do trabalho, análise de processos, mapeamento de processos, PDCA, Metodologia de Análise e Solução de Problemas, elaboração de planos de ação e análise de eficácia de resultados.
  • A Política da Responsabilidade Social – Para atender às condições de um sistema de gestão da responsabilidade social, a política deve estar plenamente coadunada com o Planejamento Estratégico da organização e seus valores propagados e praticados. A diretoria deve definir a política de responsabilidade social da organização e assegurar que dentro do escopo definido para o seu sistema de responsabilidade social seja apropriada à natureza, escala e impactos ambientais, econômicos e sociais de suas relações, processos, produtos e serviços; inclua o comprometimento com a promoção da ética, da cidadania, da transparência, da sustentabilidade e a melhoria contínua e com a prevenção de impactos negativos ambientais, econômicos e sociais; inclua o comprometimento com o atendimento à legislação e outros instrumentos internacionais aplicáveis aos seus aspectos da responsabilidade social, e demais requisitos subscritos pela organização; forneça a estrutura para o estabelecimento e revisão dos objetivos e metas de responsabilidade social; seja documentada, implementada e mantida; seja comunicada para todas as pessoas que trabalham para, ou em nome da, organização; esteja disponível para o público; faça parte da estratégia e das práticas de atuação da organização; seja desdobrável em objetivos e metas mensuráveis.
  • O Planejamento da RSE – Essa é é uma das mais delicadas etapas da implantação. Quando se comete equívocos, se propagarão por todo o sistema e, com certeza, macularão sua eficácia e sua eficiência. Essa etapa deve ser coordenada apenas por profissionais que realmente entendem do assunto. O planejamento deve: incluir clara definição de papéis, responsabilidades e autoridade, devidamente comunicada a fim de facilitar uma gestão de responsabilidade social eficaz; possuir um plano de treinamento de novos funcionários e/ou temporários quando da contratação; considerar treinamentos periódicos e programas de conscientização para os funcionários existentes; prever procedimentos para identificar e permitir acesso à legislação aplicável a seus aspectos da responsabilidade social e outros requisitos por ela subscritos; planejar os objetivos e metas de responsabilidade social, em funções e níveis relevantes dentro da organização; considerar os requisitos legais, aspectos ambientais, econômicos e sociais significativos, suas opções tecnológicas, seus requisitos financeiros, operacionais e comerciais, os meios sociais e culturais em que a organização está inserida, bem como a visão das partes interessadas sobre as suas atividades e os impactos decorrentes; incluir programas para atingir seus objetivos e metas de responsabilidade social, incluindo meios e prazos; projetar o provisionamento de recursos para estabelecer, implementar, manter e melhorar o sistema da gestão de responsabilidade social., abrangendo recursos humanos, qualificações específicas, tecnologia, recursos de infra estrutura e recursos financeiros.
  • Elaboração dos procedimentos de RSE – Toda a implantação de sistemas de gestão tem na interiorização e padronização dos seus procedimentos um marco de conquista. A padronização dos procedimentos relativos à responsabilidade social tem uma restrição adicional: efetivamente só será obtida se os gestores e a direção estiverem muito alinhados com os princípios de ética e de cidadania. Se há uma situação em que o velho ditado do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” não conseguirá se impor, aqui está esta situação. Cuidado adicional deve ser relevado ao elaborar os procedimentos: eles deverão ser muito claros, objetivos, simples, sem ambigüidades e entendíveis por todos – sem exceção – da organização.
  • Auditorias internas – O objetivo das auditorias internas durante a implantação do sistema é avaliar seu grau de evolução (real versus planejado), detectar pontos de estrangulamento e de melhoria, e detectar entraves de caráter discriminatório ou equivalente que porventura estejam ocorrendo.
  • Ações corretivas – Elas devem ser executadas para eliminar as causas de não conformidades de forma a evitar sua repetição. As ações corretivas devem ser apropriadas aos efeitos das não conformidades encontradas, e um procedimento documentado deve ser estabelecido para definir os requisitos para: a análise crítica de não conformidades (incluindo reclamações de partes interessadas); determinação das causas das não conformidades; avaliação da necessidade de ações para assegurar que aquelas não conformidades não ocorrerão novamente; determinação e implementação de ações necessárias; registro dos resultados de ações executadas; análise crítica de ações corretivas executadas.
  • Se for o caso, auditoria de certificação – As normas certificáveis de RSE exigem que as evidências de conformidade devem ser ser demonstradas pela empresa.

Enfim, o limite dos recursos naturais, o alto número de pessoas escolarizadas, o grande acesso a informações e a ampla capacidade de organização dos cidadãos são alguns dos motivos da efetiva mudança na forma das empresas realizarem seus negócios. Esses não são fatores conjunturais ou passageiros.

A necessidade de considerar essas características leva empresas e agentes financiadores a dedicarem maior atenção às relações com seus parceiros: dos funcionários aos organismos da sociedade em geral e aos governos. Além disso, para avaliar o impacto do negócio fora dos muros da empresa e evitar riscos, as relações com os fornecedores têm sido igualmente alvo de preocupação. Além disso, muito se vem falando sobre a norma ISO 26000, que não é certificável e, segundo diretora corporativa da BDO no Brasil, Iêda Novais, essa norma refere-se à responsabilidade social a partir dos seguintes princípios: a responsabilidade de uma organização pelos impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente, por meio de um comportamento ético e transparente que: contribua para o desenvolvimento sustentável, inclusive à saúde e bem-estar da sociedade; leve em consideração as expectativas dos stakeholders; esteja em conformidade com a legislação aplicável e seja consistente com normas internacionais de comportamento; e esteja integrada em toda a organização e seja praticada em seus relacionamentos.

“É interessante saber que, diferente de outras normas emitidas pela ISO (como a ISO 9000, que trata da gestão de qualidade, ou a ISO 14000, sobre gestão ambiental), não haverá a emissão de um selo ou certificação ISO 26000. A norma servirá simplesmente como uma referência daquilo que é entendido e compreendido como responsabilidade social no mundo. A nova norma promove em seu conteúdo uma compilação de regras, normas e orientações já existentes sobre o tema, reunindo as informações mais relevantes e consensuais apuradas ao longo de sua preparação. Ela servirá às empresas e organizações como uma referência sobre a compreensão e utilização das práticas de responsabilidade social voltadas ao crescimento sustentado”, explica.

Ela acrescenta que, com a nova norma, a discussão sobre as ações e iniciativas responsáveis das corporações e organizações passa a contar com um referencial que reduz a subjetividade de sua avaliação e análise. A ISO 26000 vem reforçar, também, o entendimento e o reconhecimento de que a atuação empresarial responsável e sustentável é um quesito obrigatório àqueles que desejam ter seus produtos, serviços ou atividades aceitos, reconhecidos e respeitados pelos exigentes consumidores de nossa economia globalizada.

Assim, a responsabilidade social empresarial passa a ser considerada por empresários e empreendedores nas suas tomadas de decisão, nas soluções de seus problemas, na exploração de novas oportunidades. A RSE não é um tema passageiro, veio para ficar.

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