Empresa‎ > ‎ARTIGOS‎ > ‎

As tendências da qualidade, do meio ambiente, da metrologia e da normalização na próxima década

Revista Banas Qualidade - 5/11/2010

[Hayrton Rodrigues do Prado Filho]

Atualmente, com o advento da tecnologia,que se altera a cada minuto, os gestores podem criar ações imediatas, buscando eficiência nos processos, montando estratégias de compras e analisando volumes e tipos de produtos, no mesmo instante em que o comprador inicia suas atividades. Assim, as empresas que querem ser competitivas e ter longevidade devem buscar as novas tecnologias inovativas para efetuar sua gestão com redução de custos e qualidade para suas operações, migrando do operacional para o estratégico, não se esquecendo de seus controles ambientais e metrológicos, além de aplicar cada vez mais a normalização em seus inputs e outputs.

Competitividade global, problemas socioambientais,aumento da pobreza e da violência são fenômenos mundiais que estão alterando a forma de atuação dos gestores empresariais, gerando uma ampla gama de ações que deverão ser realizadas na próxima década. Há que se refletir sobre todos esses aspectos que atingem direta e indiretamente toda a sociedade em geral, pois as transformações são constantes e ocorrem a cada segundo.

Uma dessas dificuldades se relaciona com a gestão das pessoas,já que está chegando ao mercado a denominada geração Y, representada por pessoas que nasceram a partir de 1977. Eles se divertem com jogos eletrônicos, cresceram usando a Internet e surpreendem com informações inesperadas sobre os mais variados temas, e adoram celular, e-mail, MSN, blogs, torpedos que parecem escritos em código.

As pesquisas mostram que a nova geração adora atenção, tem foco no curto prazo e acredita na mudança constante. Não aceita bem regras preestabelecidas e considera natural trocar muitas vezes de trabalho. A família onde essa geração foi criada tornouse diferente das anteriores: mães que trabalham fora e formas diferentes de organização familiar (que não necessariamente são representadas por um pai e mãe presentes). Essa nova geração não está acostumada a ter que esperar e a lidar com ambientes autoritários. Além disso, não gosta de muitos direcionamentos, mas ao mesmo tempo precisa do estímulo, como dos jogos eletrônicos, para que possa reagir ao invés de agir.

Para a geração Y, o valor do pensamento sistêmico, com a possibilidade de olhar para o global e o local, é uma competência tão importante ao novo mundo do trabalho. Outra característica é a sua abertura à diversidade, já que eles aceitam muito bem diferenças de raça, sexo, religião e nacionalidades em seus círculos de relação. Como se pode perceber, haverá, nos próximos anos, um choque de gerações. A geração X, as pessoas nascidas entre 1964 a1976,que hoje atua nas organizações e é capaz de gerar resultados por meio de processos estabelecidos, regras claras, usando experiência profissional e de vida.

Enfim, o perfil desse novo gestor será ser o mediador entre o conhecimento e a prática, estabelecendo as mais viáveis transações entre as instituições, assumindo papel fundamental nos processos de desenvolvimento social. Toda ação gestora, orienta-se por princípios de mudança e desenvolvimento para o social; o que envolve muitos desafios a serem vencidos. Já o gestor do desenvolvimento social promove a conciliação dos conhecimentos, ética e efetividade; ou seja, ele deve ser um mediador entre as pessoas. Saber ser, interagir e agir são valores de competência de um bom gestor mutliqualificado, capaz de dar respostas eficazes a situações do dia a dia, e de enfrentar problemas de alta complexidade.

Algumas outras características deverão fazer parte do manual do gestor nos próximos anos. Para tomar decisões mais rápidas, frente às instabilidades do mercado, as organizações terão que ampliar seus canais de comunicação, reforçando as atividades de pesquisa e levantamento de informações que a levem a desenvolver soluções mais rápidas. Também, deverá ser preparar para um aumento do relacionamento com o ambiente externo: para tomar decisões com diversos sistemas de gestão, incluindo financeira, tecnologia e recursos humanos aos sistemas de gestão existentes como o da qualidade, meio ambiente, saúde e segurança aumenta significativamente a complexidade administrativa; os esforços para transformar o trabalhador num profissional multidisciplinar não serão suficientes para promover a integração de vários sistemas de gestão. 

Para o consultor Clovis Fernandes Oyarzabal, quando observamos os dias de hoje, percebe-se claramente que as organizações globalmente competitivas adotam sistemas de gestão diferenciados da grande maioria das empresas de nosso país. “Nessas empresas ficam em destaque as políticas, os conceitos e os métodos, como foco no cliente, sustentabilidade, inovação, gestão dos processos, indicadores de desempenho e gestão de pessoas. Tais conceitos são contemplados, disseminados, valorizados e praticados a título de gestão para a Qualidade Total. Sabedores que somos de que todas as atividades voltadas para o domínio das rotinas e a melhoria da empresa passam pela participação ativa de pessoas que possuem um limite natural de aprendizagem ao longo do tempo, é fácil percebermos o grande desafio da maioria das empresas nacionais, para a implantação do novo sistema. A sobrevivência, certamente passará pela capacidade das lideranças em mobilizar e capacitar todos os participantes da organização na construção das melhores rotinas; na resolução dos problemas e na inovação constante. O sucesso estará assentado nos pilares da razão (medir, analisar e atuar nos resultados indesejáveis) e na emoção (participação de todos, criatividade, intuição e tino). A grande vantagem competitiva estará com os visionários, com coragem para o pioneirismo e a quebra de paradigmas”, explica ele.

Nelson Cafiero, diretor da Texto, acredita que alguns processos já se encontram muito mais avançados e consolidados em outros países do que no Brasil. “Hoje, a questão da qualidade ambiental é uma megatendência mundial, no que diz respeito à conscientização de toda a população em relação a esse tema. A tendência é de que nos países de Terceiro Mundo sigam as que já são sólidas em países da Europa, mediante normas que não por si só venham a estabelecer essas atividades de monitoração e cuidado para com a qualidade ambiental como rotina, ou algo padrão, mas sim por meio da fiscalização dessas normas. Hoje, normas existem aos montes, mas fiscalização e penalidades, quase são nulas, portanto, para países como o Brasil, onde ainda não é uma preocupação cultural a questão da qualidade ambiental, pode ser que se leve mais tempo do que em outros países. Mas por se tratar de uma conscientização mundial que vem num crescendo em  velocidade ímpar nos últimos anos, acreditamos que o Brasil em dez anos estará em foco estratégico no que tange a adequação aos quesitos que são empregados hoje na Europa”, assegura.

Segundo Marlon José Martins, do departamento técnico do Laftec, atualmente vive-se a era do conhecimento em que a cada minuto é criada uma nova tecnologia. “Para acompanharmos essas inovações devemos, nos reciclar constantemente e sermos pessoas diferentes a cada instante para podermos absorver apenas os conhecimentos que irão agregar valor para nossas vidas, ou seja, pessoal e profissional. O Brasil está em evidência e a tendência para os próximos anos é aumentar nossa visibilidade lá fora. Devemos ter consciência de nosso papel para podermos desenvolver um bom trabalho e sermos cada vez mais fortes comercialmente. Devemos caminhar sempre em frente, mas não devemos esquecer-nos de olhar para trás e visualizar o quanto a gestão da qualidade ambiental, da metrologia e da normalização cresceram nos últimos anos”, conta.

Martins diz ainda que a gestão da qualidade e ambiental é e será o diferencial para sustentabilidade dos processos produtivos. “Ela é a base da pirâmide, pois sem o meio ambiente não teremos onde nos desenvolver e continuar vivendo. A gestão da qualidade em metrologia deve ser bem administrada para que por meio de resultados, metrológicos robustos e coerentes poderemos tomar decisões sobre qual caminho devemos seguir em determinado momento, como se a qualidade do que produzimos ou realizamos fosse um caminho de duas vias na qual esses resultados dependam para seguirmos o caminho mais confiável por meio da confiança nos resultados e experiências vivenciadas. A normalização deve ser o guia para o desenvolvimento, devemos seguir as normas como uma ferramenta prática, pois uma norma é o resumo de experiências de pessoas que vivenciaram na pratica o que estamos implantando, por isso devemos utilizar a normalização como base para desenvolvermos nossos processos. Dessa forma cremos que para o desenvolvimento de produtos e serviços que possam a cada dia atender e superar as expectativas de nossos consumidores a gestão da qualidade, ambiental, da metrologia e da normalização, é e serão sempre fundamentais para que esse processo se forme com base em metrologias sustentáveis, íntegras e inabaláveis”, complementa.

Na opinião da diretora-técnica da Certificadora Conceitos,Sonia M. Bolsoni, para falar de tendências da qualidade para a próxima década necessariamente tem que se voltar ao passado e ainda discorrer um pouco sobre o presente. “Ao longo do tempo, no mundo, a evolução da economia mundial, o mercado globalizado, cada vez mais competitivo e aberto, foi afetando diretamente as indústrias e exigido delas esforços constantes, inserindo uma série de desafios e estimulando-as a desenvolver estratégias mais sofisticadas para obter melhoria contínua, e assim, sobreviverem a real necessidade de mudança dos clientes e/ou à presença dos concorrentes, os órgãos reguladores começaram a se fazer presente cada vez mais efetivamente, tornando a implementação de um Sistema de Gestão da Qualidade, peça fundamental para garantir o atendimento a todos os requisitos existentes e aos novos que surgiam a todo o momento”, comenta.

Segundo ela, o cenário brasileiro no final da década de 1980 foi marcado pelas diversas mudanças políticas econômicas, principalmente em relação à abertura dos mercados. “Novas organizações de origem estrangeira, com elevado avanço tecnológico, ingressaram no Brasil. Também, essa abertura proporcionou às empresas brasileiras exportarem seus produtos, para isso ocorrer, foi necessário que as conformidades de qualidade desses seguissem uma certificação internacional, a mudança para reestruturação teve que acontecer, pois o Brasil por um longo período, antes das privatizações e da internacionalização dos mercados, principalmente a indústria metal mecânica, tinham no governo seu principal cliente. Como a demanda era garantida, não houve por parte das mesmas uma grande preocupação em melhorar a eficiência de seus processos produtivos, desenvolvimento de novas tecnologias e incremento em sua capacidade gerencial, então a partir de 1990 com a Medida Provisória (MP) 158, que promovia uma ruptura da política industrial vigente nas décadas anteriores, deslocando seu eixo central de preocupação da expansão da capacidade produtiva para a questão da competitividade, forçando as empresas a se destacarem e diferenciar de suas concorrentes. Hoje, a tendência para a próxima década é as empresas buscarem na qualidade, por meio de certificações, ou seja, atestados de conformidades, diferencial de mercado, competitividade, ou exigências de clientes, atender exigências para exportação, melhoria contínua em processos, satisfação de clientes, entre outros, e quanto mais as empresas se certificam mais aumenta a pressão sobre as empresas que não ainda se certificaram, para as indústrias os conceitos de gerenciamento com qualidade estará sendo adotados por um número crescente de empresas, tanto de pequeno como médio e grande porte, e de vários segmentos, aumentando a pressão por qualidade por meio de melhorias constantes”, acrescenta.

O gestor do futuro deverá ter convivência suficiente para promover a colaboração tática e delegar o monitoramento dos processos e produtos aos gerentes, além do que terão que sofisticar mais suas formas de atuação, com a adoção de ferramentas e métodos de gestão. Instrumentos adicionais, como MASP, análise e tratamento de riscos, gestão de competências, métodos de avaliação de treinamento, desdobramento estratégico e muitos outros deverão ser implementados para complementar as certificações.

Soma-se a isso tudo à tendência crescente da aplicação de instrumentos de gestão de risco. Dessa forma, o gestor terá que implementar a ação preventiva não como o último requisito das normas, mas como uma consequência do planejamento dos processos e da realização do produto.
A responsabilidade social poderá estar representada na norma ISO 26000, que, em linhas gerais, objetiva harmonizar as orientações de responsabilidade social já existentes, acordadas internacionalmente, estabelecendo uma melhor prática para responsabilidade social consistente com declarações relevantes e convenções das Nações Unidas, especialmente a declaração universal dos direitos humanos e as convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A diretriz normativa busca abranger conceitos aplicáveis a todos os tipos e portes de organizações, tanto em países desenvolvidos quanto em países em desenvolvimento.

Os princípios de responsabilidade social estabelecidos na norma são: accountability (que significa a ideia de prestação de contas à sociedade), transparência, comportamento ético, respeito e consideração aos interesses dos stakeholders, cumprimento das leis e normas internacionais e universalidade dos direitos humanos.

Já a sustentabilidade está inclusa na ISO 9004:2009 denominada Gestão do Sucesso Sustentável – Uma abordagem da Gestão de Qualidade que fornece orientações para as organizações obterem o sucesso sustentável num ambiente exigente, em constante mudança e incerto. Ele é o resultado da capacidade da organização em alcançar seus objetivos em longo prazo com análise equilibrada das necessidades e expectativas das partes interessadas. A edição da ISO 9004 foi desenvolvida para manter consistência com a ISO 9001. Os dois padrões se complementam, mas também podem ser utilizados independentemente.

Atualmente, as organizações estão cada vez mais preocupadas com a qualidade ambiental e vêm buscando alternativas tecnológicas mais limpas e matérias-primas menos tóxicas, a fim de reduzir o impacto e a degradação ambientais. Dessa maneira, o sucesso sustentável é o resultado da capacidade de uma organização alcançar seus objetivos de longo prazo com a consideração equilibrada das necessidades e expectativas de todas suas partes interessadas. Os grupos ou entidades mais comumente identificados como partes interessadas são os consumidores, investidores/acionistas (proprietários), funcionários, fornecedores, parceiros e o ambiente e sociedade.

Igualmente, o gestor do futuro vai ter que olhar com mais carinho a metrologia. Como as medições estão presentes, direta ou indiretamente, em praticamente todos os processos de tomada de decisão, a abrangência da ciência da medição será imensa, envolvendo a indústria, o comércio, a saúde, a segurança, a defesa e o meio ambiente, para citar apenas algumas áreas. Estima-se que cerca de 4 a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) dos países industrializados sejam dedicados aos processos de medição.

Assim, a elevada complexidade e a sofisticação dos modernos processos industriais, intensivos em tecnologia e comprometidos com a qualidade e a competitividade, estão requerendo medições mais exatas e de confiabilidade para um grande número de grandezas. Haverá a busca constante por inovação, como exigência permanente e crescente do setor produtivo do país, para competitividade, propiciando o desenvolvimento de novos e melhores processos e produtos. Ressalta-se que medições confiáveis podem levar a melhorias incrementais da qualidade, bem como a novas tecnologias, ambos importantes fatores de inovação. 

Uma crescente consciência da cidadania e o reconhecimento dos direitos do consumidor e do cidadão, amparados por leis, regulamentos e usos e costumes consagrados – que asseguram o acesso a informações mais fidedignas e transparentes – com intenso foco voltado para a saúde, segurança e meio ambiente, requerendo medidas confiáveis em novas e complexas áreas, especialmente no campo da química, bem como dos materiais em que a nanometrologia terá papel transcendente. Um irreversível estabelecimento da globalização nas relações comerciais e nos sistemas produtivos de todo o mundo, potencializando a demanda por metrologia, em virtude da grande necessidade de harmonização nas relações de troca, atualmente muito mais intensas, complexas, e envolvendo um grande número de grandezas a serem medidas com incertezas cada vez menores e com maior credibilidade, a fim de superar as barreiras técnicas ao comércio.

No Brasil, especificamente, a entrada em operação das agências reguladoras intensificou sobremaneira a demanda por metrologia em áreas que antes não necessitavam de um grande rigor, exatidão e imparcialidade nas medições, como em alta tensão elétrica, telecomunicações, grandes vazões e grandes volumes de fluidos. Essa crescente importância da metrologia gerou demandas de desenvolvimento em novas áreas, como a metrologia química, a metrologia de materiais, a metrologia de telecomunicações e a metrologia no vasto campo da saúde, bem como a implantação de melhorias técnicas em áreas tradicionais, como a introdução de padrões quânticos (Efeito Josephson e Efeito Hall quântico), e adaptações estruturais do sistema metrológico, tanto no nível nacional, como no internacional. Abaixo seguem diversos artigos de especialistas que escrevem sobre suas visões para as tendências da qualidade, do meio ambiente, da metrologia e da normalização na próxima década.





Comments